Dom Quixote segundo Portinari, desenho de 1965

Li outro dia um artigo que alertava para a inadequação de ministrar obras muito antigas durante o ensino básico. O autor defendia que os clássicos do sec XVIII não eram adequados para tal “momento”. Veja aqui: Brasileiro lê pouco. E você sabe por quê?

Fiquei matutando o argumento do autor. Conclui que ele estava equivocado.

Posso até concordar que o texto voltado para as crianças tenha de apresentar algumas características destintas. Mas isso não justifica privar as crianças dessas narrativas que contam a história da literatura. Afinal de contas são justamente elas que, apesar da idade, formarão futuros leitores.

Se nas edições originais o texto é muito longo – “sem diálogo e sem figuras”, como reclamava Alice -, nada melhor do que a sensibilidade de escritores contemporâneos para reescrevê-los para as crianças.

Na biblioteca do Pedro há dois bons exemplos – “O Cavaleiro do Sonho – As Aventuras e Desventuras de Dom Quixote de La Mancha”, adaptação de Ana Maria Machado para o clássico de Miguel de Cervantes; e “Ruth Rocha conta a Odisseia”. Duas ótimas edições.

Aqui em casa geralmente sou eu quem sugere as próximas leituras, mas a última palavra é sempre do Pedro. Nesse caso, os dois guerreiros de pronto cativaram meu menino.

No caso da Odisseia de Ruth Rocha, discordo da leitura que fez sobre as ingerências divinas na vida do herói. Pra mim, Ulisses ficou com Circe porque quis. E voltou pra casa quando bem entendeu. Mas essa discussão tem 2,4 mil anos. Não pretendo encerrá-la aqui.

O que importa é que, mesmo sem muitas figuras, a nau de Ulisses já embarcou a mim e ao Pedro por muitas e muitas noites a caminho de Ítaca.

Já no caso do Quixote da Ana Maria Machado, o que me chamou a atenção foi a leitura contemporânea que ela faz da saga do mais querido cavaleiro de todo mundo ocidental. Ana faz questão de lembrar os valores que Quixote defendia, mas que continuam desacreditados até hoje.

Outro destaque é o diálogo entre a narrativa de Cervantes e os desenhos de Portinari, que ilustram a edição. No final ela compara a vida dos dois autores e conta a história da intoxicação que Portinari sofreu com as tintas dos painéis da ONU, que fora convidado a produzir. Fato que desconhecia.

Já nas aventuras de Quixote e Sancho, pra minha surpresa, Ruth destacou a passagem onde aparece o cavalo de madeira, Clavileño – el Aligro, sobre cujas ancas, os heróis foram combater o gigante Malambruno no reino dos trovões (Cap XL – De cosas que atañen y tocan a esta aventura y a esta memorable historia). Esse trecho sempre mexeu comigo, porque Clavileño foi como meu pai batizou uma série de veleiros de madeira que possuímos – e hoje batiza meu Micro19.

Quixote e Sancho montam no Clavileño, desenho de Gustave Doré, de 1863.

Esses dois trabalhos não são nem sombra do texto original. Mas o capricho das escritoras captura a atenção das crianças. Eu e Pedro já os lemos várias vezes a ainda vamos ler outras tantas. Cada nova leitura: um interpretação diferente.

As imagem narrada reverberam na mente da criança, fecundando sua imaginação. E provavelmente despertará a curiosidade dela para uma possível leitura do texto original na vida adulta. Taí a importância de releituras como essas de Ruth e Ana Maria.

Na verdade reescrever clássicos para as crianças é um trabalho que exige engenhosidade (trabalho de carpintaria como diria Autran Dourado) similar ao da tradução, que, embora não converta a obra inteira, é capaz de comunicar sonhos e encantos de uma cultura para a outra.

Por vezes, há traduções que conseguem desvendar segredos escondidos na obra que nem o próprio autor poderia suspeitar. (Por exemplo, é cativante a ternura com que Ana Maria Machado trata Dom Quixote. Sentimento que todo mundo compartilha com ela. Menos Cervantes que durante a narrativa reserva surras e mais surras a seu personagem.)

Sei de traduções que saíram melhor do que o original. Exemplo disso são algumas obras francesas que Rilk verteu para o Alemão. Em “Uma História da Leitura“, Alberto Maguel menciona a tradução que Rilke fez dos poeminha de Louise Labé – poeta francesa, que vivera um século antes.

Segundo Manguel, Rilke transformou os melosos versinhos de donzela, em valorosas peças trágicas, que são lidas até hoje na Alemanhã, enquanto na França pouco se comenta sobre a obra de Labé.

Outro exemplo, pelo que parece, são as versões de Paulo Coelho para o francês. Todos, sucesso absoluto. Segundo fiquei sabendo, a cada nova produção, um time de primeira se debruça sobre os originais com a missão de transformar aquilo em caprichados textos em francês genuíno. Tal prodígio explicaria parte do sucesso do nosso mago na terra de Prust.

Isso, sim, é alquimia!

7 de janeiro de 2011

Pedro,

Arrumei sua biblioteca e me dei conta que ela contém mais de cem livros. Livros em português, inglês e ainda uma versão de Pinocchio no original, que comprei em Florença, quando eu e sua mãe estivemos lá em lua-de-mel.

Além do boneco de pezzo di legno, tem também um edição de Moby Dick, com uma réplica do Pequot que salta de suas páginas logo no começo do livro. Tem Cecília, Mia Couto, e uma versão da Odisséia, reescrita pela Ruth Rocha, que você ainda não se interessou. E, tem também, é claro, todos os bichos da Arca de Noé. O poema do pato, você sabe de cor.

Não tenho dúvida que, se você quisesse, poderia repetir cada uma dessas histórias. Tantas são as vezes que as lemos pra você. Principalmente, a do livro multimídia do Relâmpago McQueen, cuja viagem para o interior marcou a vida dele e o início da sua.

Mas você nunca conta pra gente – apesar de nossa insistência. Também, por que perder tempo contando histórias, se tem um pai que diz que fez você “só para ler historinhas antes de seu sono chegar”.

Não só ler, mas escrever também. Uma delas é a do Gavião e o Fogo, que você sempre pede quando estamos viajando, ocasião em que você fica longe de sua biblioteca. Nessas horas, sou obrigado a sacar uma historinha de bate-pronto para embalar seu sono.

Todas essas histórias povoam sua realidadezinha. Numa noite dessas, você sentiu medo, quando eu lia a do João e o Pé de Feijão. Tudo porque, recentemente, enormes pés de feijão têm brotado da horta que você e a Tetéia cultivam na varanda.

Seu medo era que, pelos pés de feijão, descesse o gigante, procurando a galinha dos ovos de ouro. Você só descansou, quando expliquei que os feijões da sua horta não eram mágicos com os da história.

Pedro, nada disso é por acaso. Eu e sua mãe sempre quisemos que fosse assim. Antes de você nascer, arrumamos seu quarto de modo que houvesse uma estante com prateleiras rente ao chão. Assim, você teria livros sempre à mão.

Alguns novos outros nem tanto: há uma coleção do Sítio do Picapau amarelo, que ficava na casa de usa Vovó Leide, e um dicionário inglês ilustrado que a Vovó Beta trouxe pro Papai e pra Dinda de uma viagem que fez aos Estados Unidos, mais de trinta anos atrás.

Agora velhinha mesma, bem velhina, é uma coleção dos contos dos Irmãos Grimm, que era de sua bisavó Angélica. Nas férias, sua mãe costumava se debruçar sobre essas histórias. A predileta dala era a da Moura Torta.

Que Pedro mais sortudo, esse meu, não? Ter três anos de idade e toda essa literatura fecundando sua vida.

Beijo do Painho do Pedro. Tricampeões cariocas.  Maio 2009.