Literatura tem valor em si, quando vem com mensagem moralista vira auto ajuda

Esse julgamento do Lobato é a prova da imaturidade da nossa democracia. As instituições de Educação não têm capacidade (nem representatividade) para resolver as pendengas de sua competência. Jogam para justiça como se fosse um caso de polícia, e não uma oportunidade para se fazer um debate cultural.

Aí fica o ministro Fux falando asneira e tentando resolver na base do deixa-disso, pra ir tratar do mensalão, que é o que importa.

Do jeito que está, a discussão apresenta vários vícios de origem.

Primeiro, os algozes de Lobato justificam que a censura é por causa da incompetência dos professores da rede pública. Como ninguém quer discutir a reforma da Educação Básica, a solução facinha é taxar Lobato de racista e pronto, virar-se a página.

Outro ponto é o grave erro de tratar Literatura Infantil como material instrumental-pedagógico – cujo objetivo seria moralizar as crianças. Cheque qualquer bibliografias escolar pra constatar que a opção é por livrinhos cheios de mensagens, que segundo defendem, são úteis para a formação moral da criança (e adultos).

Quem pensa assim mal sabe que está repetindo a ideologia da arte russa stalinista. Quem tiver saco, tem um artigo no site da New York Review of Books bem legal: The Arts in Russia Under Stalin.

Literatura tem de ser tratada como literatura. Uma boa história se basta. Diverte as crianças e as deixa mais vividas. Bons educadores sabem disso.

Tive o privilégio de estudar esse tema na UnB; hoje atesto o que aprendi, lendo os clássicos com meu filho Pedro. Os livrinhos que chegam da escola entram por um ouvido e saem pelo outro. Já a literatura clássica infantil mexe com a cabecinha dele.

Foi assim quando nós dois lemos Alice e está sendo assim com As memórias de Emília e Peter Pan – nossa leitura atual. Estamos na página 120 e Pedro nem percebeu que o livro tem poucas figuras.

De fato, Lobato maltrata Nastácia. Há termos que me recuso a ler pro meu filho, por mais que o autor circunscreva os insultos às tagarelices de Emília. Mas sei que criança aprende rápido, principalmente besteira.

O que fazer? Busco uma solução. Compartilho minhas dúvidas com Veríssimo, que foi sincero no artigo sobre o causo, aqui.

Estou convicto, no entanto, que a opção pela censura é a pior. Já deveríamos ter aprendido isso.

E me recuso a aceitar qualquer decisão vinda de um tribunal sobre a obra de Lobato, ainda mais nesse país, onde juízes de cheias burras se aposentam pra virar poetas de pijama.

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