7 de janeiro de 2011

Pedro,

Arrumei sua biblioteca e me dei conta que ela contém mais de cem livros. Livros em português, inglês e ainda uma versão de Pinocchio no original, que comprei em Florença, quando eu e sua mãe estivemos lá em lua-de-mel.

Além do boneco de pezzo di legno, tem também um edição de Moby Dick, com uma réplica do Pequot que salta de suas páginas logo no começo do livro. Tem Cecília, Mia Couto, e uma versão da Odisséia, reescrita pela Ruth Rocha, que você ainda não se interessou. E, tem também, é claro, todos os bichos da Arca de Noé. O poema do pato, você sabe de cor.

Não tenho dúvida que, se você quisesse, poderia repetir cada uma dessas histórias. Tantas são as vezes que as lemos pra você. Principalmente, a do livro multimídia do Relâmpago McQueen, cuja viagem para o interior marcou a vida dele e o início da sua.

Mas você nunca conta pra gente – apesar de nossa insistência. Também, por que perder tempo contando histórias, se tem um pai que diz que fez você “só para ler historinhas antes de seu sono chegar”.

Não só ler, mas escrever também. Uma delas é a do Gavião e o Fogo, que você sempre pede quando estamos viajando, ocasião em que você fica longe de sua biblioteca. Nessas horas, sou obrigado a sacar uma historinha de bate-pronto para embalar seu sono.

Todas essas histórias povoam sua realidadezinha. Numa noite dessas, você sentiu medo, quando eu lia a do João e o Pé de Feijão. Tudo porque, recentemente, enormes pés de feijão têm brotado da horta que você e a Tetéia cultivam na varanda.

Seu medo era que, pelos pés de feijão, descesse o gigante, procurando a galinha dos ovos de ouro. Você só descansou, quando expliquei que os feijões da sua horta não eram mágicos com os da história.

Pedro, nada disso é por acaso. Eu e sua mãe sempre quisemos que fosse assim. Antes de você nascer, arrumamos seu quarto de modo que houvesse uma estante com prateleiras rente ao chão. Assim, você teria livros sempre à mão.

Alguns novos outros nem tanto: há uma coleção do Sítio do Picapau amarelo, que ficava na casa de usa Vovó Leide, e um dicionário inglês ilustrado que a Vovó Beta trouxe pro Papai e pra Dinda de uma viagem que fez aos Estados Unidos, mais de trinta anos atrás.

Agora velhinha mesma, bem velhina, é uma coleção dos contos dos Irmãos Grimm, que era de sua bisavó Angélica. Nas férias, sua mãe costumava se debruçar sobre essas histórias. A predileta dala era a da Moura Torta.

Que Pedro mais sortudo, esse meu, não? Ter três anos de idade e toda essa literatura fecundando sua vida.

Beijo do Painho do Pedro. Tricampeões cariocas.  Maio 2009.