Capa do livro “Chico Mendes para crianças”

É bom ver gente ajudando na memória do Chico Mendes.

Não gostei de um ponto do livro da Fátima: a forma como a floresta entra na obra.

Trabalho com a  Amazônia. Um dos focos é familiarizar as pessoas com nossas florestas.

Percebi que na história perpetua mitos que não ajudam as pessoas a se aproximar delas.

Ali parece que a floresta oprime as personagens. Como se as florestas estivessem distantes do mundo das pessoas, que vivem na cidade. O que é um equivoco. Elas vivem no nosso cotidiano.

Nossas opções diárias impactam diretamente ou indiretamente a floresta amazônica. A carne que comemos, as roupas que compramos os politicos que levamos ao poder.

Mesmo assim, seguimos acreditando que florestas são o contriário das cidades e nao uma extensao.

O livro ajuda nessa crença.

Prefiro pensar que nossas florestas, no lugar de isolar, quem mora dentro delas, na verdade, protege. Protege os ribeirinhos, a fauna e as águas que bebemos, nós mesmos.

Culturas milenares ainda estão sobrevivem, porque a floresta (tão grande como o mundo, pensando como Guimarães Rosa) as protegeu e preservou.

Outra questão, que não concordo é que floresta só dá lucro pra bandido.

Meu trabalho é também criar valor para nossas áreas florestais para que não sejam substituídas por pastagens.

Já imaginaram quanto vale a chuva que a floresta amazônica joga para a agricultura do centro-sul?

Os recursos que oferecem, se bem manejados, podem distribuir benefícios diretos pra quem vive protegido por elas.

Esse, aliás, é o ensinamento que o Chico Mendes deixou. Mas tá difícil de disseminar.

Mandei essa mensagem pra Fátima e parabenizei pela ajuda dela. Mas lembrei que esses são os grandes ensinamentos de Chico Mendes. E que, se ela quisesse ajudar a divulgar, ele vai ficar feliz lá onde estiver (no meio do mato, tenho certeza).

Blog da Fatima: Mariazinha zinha zinha

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7 de janeiro de 2011

Pedro,

Arrumei sua biblioteca e me dei conta que ela contém mais de cem livros. Livros em português, inglês e ainda uma versão de Pinocchio no original, que comprei em Florença, quando eu e sua mãe estivemos lá em lua-de-mel.

Além do boneco de pezzo di legno, tem também um edição de Moby Dick, com uma réplica do Pequot que salta de suas páginas logo no começo do livro. Tem Cecília, Mia Couto, e uma versão da Odisséia, reescrita pela Ruth Rocha, que você ainda não se interessou. E, tem também, é claro, todos os bichos da Arca de Noé. O poema do pato, você sabe de cor.

Não tenho dúvida que, se você quisesse, poderia repetir cada uma dessas histórias. Tantas são as vezes que as lemos pra você. Principalmente, a do livro multimídia do Relâmpago McQueen, cuja viagem para o interior marcou a vida dele e o início da sua.

Mas você nunca conta pra gente – apesar de nossa insistência. Também, por que perder tempo contando histórias, se tem um pai que diz que fez você “só para ler historinhas antes de seu sono chegar”.

Não só ler, mas escrever também. Uma delas é a do Gavião e o Fogo, que você sempre pede quando estamos viajando, ocasião em que você fica longe de sua biblioteca. Nessas horas, sou obrigado a sacar uma historinha de bate-pronto para embalar seu sono.

Todas essas histórias povoam sua realidadezinha. Numa noite dessas, você sentiu medo, quando eu lia a do João e o Pé de Feijão. Tudo porque, recentemente, enormes pés de feijão têm brotado da horta que você e a Tetéia cultivam na varanda.

Seu medo era que, pelos pés de feijão, descesse o gigante, procurando a galinha dos ovos de ouro. Você só descansou, quando expliquei que os feijões da sua horta não eram mágicos com os da história.

Pedro, nada disso é por acaso. Eu e sua mãe sempre quisemos que fosse assim. Antes de você nascer, arrumamos seu quarto de modo que houvesse uma estante com prateleiras rente ao chão. Assim, você teria livros sempre à mão.

Alguns novos outros nem tanto: há uma coleção do Sítio do Picapau amarelo, que ficava na casa de usa Vovó Leide, e um dicionário inglês ilustrado que a Vovó Beta trouxe pro Papai e pra Dinda de uma viagem que fez aos Estados Unidos, mais de trinta anos atrás.

Agora velhinha mesma, bem velhina, é uma coleção dos contos dos Irmãos Grimm, que era de sua bisavó Angélica. Nas férias, sua mãe costumava se debruçar sobre essas histórias. A predileta dala era a da Moura Torta.

Que Pedro mais sortudo, esse meu, não? Ter três anos de idade e toda essa literatura fecundando sua vida.

Beijo do Painho do Pedro. Tricampeões cariocas.  Maio 2009.

O Gavião e o fogo

7 de janeiro de 2011

O gavião acordou cedo e levantou vôo para a ronda que fazia todas as manhãs. Era inverno e o céu estava azul claro. Lá de cima, observou o cerrado seco do Parque Nacional de Brasília.

Percebeu uma fumaça que vinha da parte baixa do parque. Era um fogo que recém começava, mas já se alastrava por entre as árvores. Quando o gavião se aproximou viu lobos, raposas, tucanos e tatus fugindo assustados.

Destemido, decidiu enfrentar o fogo sozinho. Se aproximou para o ataque, mas logo sentiu o forte calor das labaredas. Aquele não era um adversário qualquer. Contra ele, seu bico afiado de gavião-caçador e suas garras de rapina eram inúteis.

Decidiu perguntar a uma velha moradora do parque como poderia vencê-lo. Dona jabuti vivia lá antes mesmo de o parque virar parque e de Brasília ser construída. Era mais velha do que a vó da vó da sua bisavó. Por isso, conhecia quase todas as coisas.

 -Dona jabuti, como posso vencer esse inimigo da floresta?

A velha tartaruga não se surpreendeu com a pergunta, acomodou-se tranqüila e olhou para o gavião. Na idade dela, nada mais assustava. Contou a ele que o fogo não era mau naturalmente. O fogo podia ser mau, mas podia ser bom também.

– Ele é o que o bicho-homem faz dele, explicou a jabuti.

E continuou:

– O fogo é mau quando ateado de propósito na floresta. Porque queima as árvores, mata os bichos e polui o ar.

– Mas tem o fogo bom, que traz o dia para a Terra, que cozinha o almoço e aquece a casa nas noites de frio. Agora, aquele fogo, sim, aquele era um fogo mau, entristeceu-se dona jabuti.            

Mau, porque tinha sido ateado no parque de propósito pelo bicho-homem.

— Como faço para vencer esse fogo mau? Quis saber o gavião.

– O único modo de vencer um elemento natural é com outro elemento natural, explicou a velha sábia. — Para vencer o fogo só com a terra, a água, o ar ou com o próprio fogo, concluiu.

O gavião ficou pensativo. De água nada entendia. Não sabia pescar; não sabia nadar. Ficava admirado quando via os biguás boiando ao léu na barragem de Santa Maria, que ficava dentro do parque.

Tampouco era íntimo da terra. Preferia as alturas. Morava na copa das árvores. Voava por entre as nuvens. Só vinha para perto do chão quando atacava suas presas. Mesmo assim, era tão preciso no bote, que mal levantava poeira.

Agora, do ar ele era mestre. Conhecia todos os segredos do vento. Se escondia nas nuvens. Escorregava pelas brisas. Preparava o ataque no sopro da rajada. Era isso:

– O vento é que vai me ajudar a vencer o fogo, pensou consigo mesmo.

Armado com a velha sabedoria da jabuti, o gavião decolou em direção às chamas. Não havia tempo a perder!

Se aproximou da área do incêndio. Ganhou altura. Parou no ar e fixou o olhar no fogo. Como uma flecha, zuniu em direção ao chão.

Muitos bichos assistiam à cena e acharam que o gavião fosse mergulhar nas brasas. Mas, quando chegou rente às chamas, num golpe rápido, bateu as asas com tanta força que o incêndio apagou na mesma hora.

A bicharada feliz começou a comemorar a coragem do gavião. Mas nem deu tempo. Quando o homem viu que o fogo tinha sido apagado, começou outro incêndio ainda maior. Cansado, o gavião nada mais podia fazer.

As outras aves, que tinham visto como ele apagara as primeiras chamas, resolveram fazer igual. De repente, tucanos, sabiás, uma revoada de periquitos, subiram acima da copa das árvores e desceram velozes como raios em direção às chamas.

Quando bateram as asas em frente ao fogo, o vento que soprou foi tão forte que não só apagou o incêndio, como jogou o homem no chão.

Na mesma hora, apareceram na estrada outros bichos-homens. Esses, ao contrário, vinham para combater o fogo. Eles prenderam o criminoso e cuidaram dos animais machucados.

Naquele dia, o gavião aprendeu que o bicho-homem também não é mau naturalmente. Há e sempre haverá os homens que destroem, mas também outros que respeitam a Natureza.

Esses, ao invés de queimar as árvores, usam o fogo para coisas boas. Como iluminar a noite, por exemplo. Quando a tarde cai, eles acendem uma fogueira, sentam-se ao redor dela e contam históninhas para os menininhos dormirem.

Do Papai para o Pedro, em fevereiro de 2008