Eliana Yunes debate os rumos da leitura no Brasil

por: Filippo Cavalcanti Picanço

Por que temos índices de leitura muito baixos no Brasil? 

Se consideramos leitura apenas no sentido estrito do escrito/ verbal, possivelmente os índices estão aquém do desejado.

Mas  ler não implica apenas o verbal: há linguagens o tempo todo se oferecendo à leitura: a moda, a culinária, a arquitetura, a música, os eventos, este espaço, etc. Porque leitura é um exercício de pensamento, expressão de uma experiência colhida e disposta à interação com o outro. Lemos o transito para atravessar a rua. E não digam que isto é sofismar. Não leia os sinais ou os ignore e perde-se a vida!

Retornando ao ponto: lemos pouco e pensamos mal, quando não estabelecemos relações entre as coisas que vemos/lemos; temos baixos índices de leitura, mas os protestos nas ruas, hoje, são uma leitura das omissões e abusos na administração pública e uma resposta ao texto político que oferecem.  Será que lemos tão pouco? Ou não lemos apenas o que o mercado oferece à compra como objetos específicos?

Mas lemos poucos livros sim, pouca literatura, pouca ficção que, no entanto, se oferece como o grande ensaio de vida. Por que lemos tão pouco?

Os nossos pais não leem e não nos leem em casa por razões diversas, desde a falta de alfabetização condizente, até a falta de tempo, de vontade, de interesse; ter $$ pode parecer bem satisfatório numa sociedade de consumo, pensar não é preciso… A falta de ambiência para a leitura em casa é fatal.

Isto pode ser rompido pela escola QUANDO tem mediadores   que são eles mesmos leitores, quando há biblioteca escolar e o projeto educativo coloca a leitura à frente de conteúdos  inócuos e formas alienadas de interação com o conhecimento.

As bibliotecas públicas, pouco sedutoras, não oferecem programas de leitura, oferecem livros  e até suportes tecnológicos modernos, onde a tal desejável capacidade de ler entra pelos olhos e ouvidos, mas não tem parada no cérebro, não se converte em pensamento… o resultado do ato de ler é formação de pensamento, não deciframento de códigos!

Como incentivar a leitura na infância de uma maneira atraente?

Lendo muito para ela e com ela. Lendo coisas de valor, estética e eticamente falando: imagens, narrativas, filmes, situações, e colocando à sua disposição na escola, pelo menos dos 04 aos 18 anos, muitos livros nas mãos. Ler para eles e deixar ler, obras sensíveis, mesmo complexas como as fantasias, mitos e contos de fada  (não se enganem!). A estrutura simples não significa linearidade.

Acompanhar crianças em espaços públicos e ensinar a ler o ambiente, o contexto, as ocorrências. Crianças tem uma percepção aguda das novidades a seu redor, do que ouvem, do que veem.

Qual a importância da leitura para o exercício da cidadania?

Claro que este conceito depende do momento histórico, do povo, da cultura e muitas vezes um sujeito de pensamento, sentindo-se responsável e partilhando a construção social de sua cidade, pode enfrentar agruras graves.

Mas a cidadania, de todo modo, mais que submissão e obediência a ditames e regras impositivas correspondem à capacidade de pensar e decidir pelo bem comum, já que o espaço-tempo que se habita implica no convívio com a alteridade.

Então, entender  a diversidade de vozes e de cenários, as perspectivas e visões múltiplas que cercam os acontecimentos e suas narrativas, preparam para uma vida mais íntegra, isto é, inteira. Funciona como uma série de ensaios para entender o viver e o conviver, esta desconhecida experiência de todos e de cada um, uma descoberta dos possíveis no mundo.

A ficção, a literatura, são estes cenários de possibilidades e interpretações que ajudam a perceber e elucidar a condição humana.

Quem lê, sabe mais, diz-se, e sobretudo, tem a oportunidade de entender melhor este compromisso inalienável com o outro, mesmo na diferença. Observa, compara, ajuíza, decide e logicamente pode fazer uma opção por si mesmo unicamente, mas pode fazê-la também pela coletividade: o lixo na rua, o patrimônio público, o passado comum, o direito à justiça, a distribuição da riqueza, o respeito à diferença.

Como é possível incentivar a leitura em espaços segregados das cidades, como é o caso das favelas?

O patrimônio da humanidade  que é a invenção do alfabeto, a comunicação das múltiplas linguagens, a liberdade de expressão não podem ser privilégio de classe ou apanágio de grupos, nem elemento de hierarquização de sujeitos: direito á capacidade de dizer e dizer-se não pode admitir limites de ordem econômica ou social.

É pois, obrigação do Estado, portanto de todo e qualquer governo, prover o acesso às condições de cidadania e educação plenas, o que significa disponibilizar não apenas os materiais e aparelhos culturais mas mediadores que saibam desiludir os sujeitos de seu acomodamento e alienação para desfrutar  das benesses da história humana que neles e por eles ainda pode ser aprimorada. Acesso e mediação, palavras-chave.

Como as bibliotecas nas escolas e nos espaços públicos podem promover a leitura entre as crianças e os adolescentes?

Antes de tudo, não apresentando a leitura como um dever pesado, uma obrigação inútil, mas entusiasticamente, mostrando o mapa do tesouro. Fora fichas e questionários!

Manter círculos de leitura, narração oral, debate de ideias, entendimento e expressão, elaboração e crítica. Desdobrar as linguagens, encenar, apropriar-se e reinventar.

Disponibilizar mediadores preparados e animados, independente do nível educacional que atendam, seja na pré-escola seja no pré-vestibular.

Ler com. Ler e trocar. Ler e pensar alto e junto. Ler e dar a ver, participar, abrir a palavra, criar sentido, responder de seu lugar à interpelação do mundo.”

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