Dedé e os Tubarões

18 de junho de 2015

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Estamos terminando de ler.

Sim, estamos, porque se um livro pode ser escrito a quatro mãos pode também ser lido com quatro olhos (seis, no caso – tô adorando meus óculos de vista cansada).

Pedro lê um capítulo; eu leio seguinte.

Como são curtos, escritos em fontes grandes, Pedro se anima a ler em voz alta alternando comigo.

Cada final de capitulo convida à leitura do próximo, como num bordado.

Dedé e os tubarões é todo construído com vocabulário simples. Leve. Isso faz com que a história corra livre, divertida, sem interrupções estilísticas ou mensagens educacionais.

Taí a receita de boa literatura, que Alessandra domina como poucos autores hoje em dia. Ela sabe que a melhor mensagem da literatura é a própria literatura. A história pela história.

Mais uma deliciosa leitura com o carque do meu coração.

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A visão colonizada por trás de uma inocente história infantil

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Caiu na minha mão um livro do notório Educador Ambiental, Samuel Murgel Branco. Como era sobre a Amazônia, me acomodei para apreciá-lo. No entanto, a media que avançava na leitura, encontrava absurdo em cima de absurdo. Não consegui tirar os olhos até a última página.

O livro trata da geografia da Amazônia, narrada por meio de uma fictícia viagem ao rio Trombetas, no noroeste do Pará, feita por uma harmoniosa família paulistana.

Sei que o professor Samuel é uma referência em Educação Ambiental. Mas não pude deixar de escrever essa critica, já que a visão dele, apesar de o livro ter sido publicado em 1995, segue sendo atualíssima.

E também porque a obra está disponível numa biblioteca infantil que frequento, à mão de qualquer criança curiosa. Na verdade, o livro é uma aula de como não se deve olhar a Amazônia.

Desde a chegada dos personagens a Belém, tudo é apresentado como pitoresco, exótico. O que reforça a visão de terra distante primitiva passível de ser colonizada.

Cheio de compaixão, o autor culpa o consumo local como principal fator da degradação ambiental, que vai percebendo pelo caminho. Pesca excessiva, lixo, etc.

Tá aí o primeiro equívoco da obra. Lixo há, mas pior que o lixo é a visão segundo a qual a Amazônia é um almoxarifado de riquezas naturais livres para serem transferidas aos mercados externos.

Os setes estados da Região Norte precisam de uma política que garanta desenvolvimento local e não crescimento econômico alhures.

Belo Monte é um bom exemplo. A região afetada pelas obras está sendo sacrificada em nome de um suposto e irremediável bem maior da nação. Mas os impactos locais permanecerão. Foi assim com a hidrelétrica de Tucuruí; assim acontece na construção das rodovias da soja.

Seguindo a leitura, acompanhamos o desembarque da família na floresta – mais desinformação vai aparecendo. O narrador admira-se com a paisagem e elabora um suposto paradoxo da ecologia amazônica: apesar da biodiversidade, a floresta expande-se sobre um solo irremediavelmente pobre.

Esse erro persiste em materiais didáticos. É mais fácil acusar a floresta de paradoxal do que estudar suas complexidades.

A pergunta formulada pelo personagem denuncia o olhar forasteiro, sempre desinteressado da floresta, mas de olho na sucção das riquezas naturais.

Não deve ter sido esse o motivo da visita do professor Samuel ao Trombetas. Mas revelou sua visão colonizada que ainda hoje seus conterrâneos mantêm. Se sensíveis educadores ambientais como ele são reféns desse preconceito, imagina o resto.

Alguém interessado em manter a floresta em pé formularia a questão de forma diferente.

Tentaria compreender a relação sistêmica entre floresta, água e solo. E aí ficaria fácil de entender a fertilidade biológica que tanto impressionou o professor Samuel.

Mineração – Seguindo a leitura, a próxima parada da família bandeirante é no município de Oriximiná, às margens do rio Trombetas, para visitar uma mina de bauxita – matéria-prima do alumínio.

A partir daí, o livro se torna fundamentalmente obscuro. Revoltante até. Principalmente para quem conhece a Amazônia e aposta na Educação como estratégia de desenvolvimento.

Uma apresentação acrítica da mineração é imiscuída na narrativa, defendendo o tal do desenvolvimento e silenciando sobre os impactos ambientais e sociais que a atividade provoca.

Os processos industriais do alumínio são enaltecidos. O autor até comenta sobre a lama vermelha que o beneficiamento da bauxita provoca, mas resume o descarte com um simples “daí se joga fora”.

Joga fora para onde, Samuel?

Eu sei para onde! Para os igarapés que garantem a sobrevivência das populações tradicionais.

Participei de audiências públicas na região. Ouvi dos ribeirinhos, que na época da instalação dessas minas, as autoridades disseram que não haveria impacto, que a indústria era moderna e só traria benefício.

Mas o peixe sumiu e a água mudou de cor”, me contaram os ribeirinhos.

Aliás, a história da região é uma joia. O professor Samuel perdeu a oportunidade de escrever um livro lindíssimo.

Quilombolas – Pouco se fala, mas a Calha Norte do Pará tem uma história heroica de luta e resistência das populações negras.

Foram vários os quilombos da região formados por escravos levados ao coração da Amazônia para trabalhar na cultura cacaueira, durante o século XIX.

Negros que subiram o rio e eram abrigados pela floresta. Até hoje eles estão lá.

Ao contrário do que se entende sobre quilombos, eles nunca se isolaram – como mostra uma pesquisa das professoras Rosa Acevedo e Edna Castro, publicada no livro “Negros do Trombetas: Guardiões de Matas e Rios”

por Rosa Acevedo e Edna Castro

Estudo detalha história dos quilombos do Trombetas

Os negros da região eram foragidos, sim, no entanto nunca cortaram os laços com as cidades. As professoras descrevem o comércio que mantinham com Belém e Santarém. Falam de como esses negros foram recrutados para a guerra do Paraguai. E o melhor: contam a descoberta de um livro, onde consta o registro de batismos clandestinos de quilombolas, realizados por padres abnegados da região.

População negra que a floresta abrigou, mas que agora volta a perder direitos com o interesse minerador.

Se o professor tivesse se debruçado sobre estudos a respeito do lugar que visitou iria se surpreendente, por um, aí sim, paradoxo regional.

Antes de iniciar a mineração, o governo federal criou unidades de conservação não para proteger o meio ambiente ou as populações tradicionais, mas para garantir a segurança da mineração. Para quem não sabe, trata-se de prática comum na Amazônia, como revela a “Mineração em Unidades de Conservação”, publicado pelo Instituto Socioambiental.

No Alto Trombetas, os quilombolas foram expulsos das áreas onde moravam para dar lugar ao mosaico de unidades de conservação, criado para proteger a atividade mineradora.

Quem se recusou foi tratado à bala pela polícia. Mais uma vez, os quilombolas tiveram que fugir floresta adentro. Novamente, ela lhes acolheu.

Apesar dos impactos, a região continua linda. Uma das mais incríveis de toda a Amazônia. O mosaico de unidades compreende a Flona Saracá-Taquera, a Rebio Trombetas, que, por sua vez, integram um outro mosaico estadual.

No final, o professor Samuel ainda empurra o velho argumento segundo o qual “o meio ambiente não deve impedir o desenvolvimento do país, nem o aproveitamento racional de seus recursos”. Para ele, é só uma questão de soluções inteligentes.

Outro falso paradoxo – muito útil para encobrir interesses não confessados.

Como Educador Ambiental, o professor Samuel (que hoje dá nome a um ativo instituto voltado para a agenda ambiental em São Paulo) deveria saber que inteligência passa longe de tentar viabilizar soluções mineradoras que levam recursos para fora da região. Como diz o jornalista Lúcio Flávio Pinto, “o que falta é consciência para adotar um modelo voltado para dentro”.

Cacaulista

Inglês de Souza sem querer escreveu um belo relato sobre a escravidão na região

Para mais informações sobre a obra do prof Samuel: http://ismb.org.br/site/index.php/2012/07/22/uma-aventura-amazonica/

E aqui o livro “Negro do Trombeta” para baixar: Negros do Trombetas: guardiães de matas e rios.

E a publicação do ISA: Mineração em UCs na Amazônia Brasileira

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Quando li que a “As Aventuras de Pi” teria sido plagiada de um conto do Moacyr Scliar, corri atrás das duas obras. Sabia que não sossegaria enquanto não passasse essa história a limpo. O sentimento de injustiça para com a literatura brasileira sempre me mobilizou.

Pelo que contava a reportagem, o autor de “Pi”, o canadense Yann Martel, teria confessado que sabia do livro brasileiro. Mas afirmava que quem o tinha escrito não passava de um autor menor.

A história repercutiu no Canadá, mas Scliar decidiu não se aporrinhar com um processo judicial alhures, numa época avançada da vida. Até porque, o canadense teria mencionado Scliar no prefácio. (Nada encontrei na edição digital brasileira.)

De qualquer forma levei Pedro pra assistir ao filme de Ang Lee inspirado no livro canadense. As Aventuras de Pi impressionaram a mim e a ele, que, apesar da idade abaixo do indicado, saiu da sessão questionando vários pontos da trama.

Nessa hora nada melhor do que me sentar com ele em volta de uma pizza e deixar o debate fruir. (Pena que geralmente no lugar da pizza prevalece o Mc Lanche Feliz.)

Pedro me fez jurar que jamais o levaria a uma viagem de navio, mas escolheu como favorita a passagem da ilha carnívora. Suco de Laranja e Richard Parker definitivamente povoaram sua mente.

Resolvi então ler para ele à noite, antes do sono, essa história do menino, do tigre e do barco. Só que na hora de escolher entre Scliar e o canadense, descobri que as edições de “Max e os Felinos” esgotaram-se há anos. Já o e-book com “As Aventura de Pi” estava acessível a um clique.

Desde então, quando bate nove horas aqui em casa, Pedro se aconchega ao meu lado e embarcamos juntos com Piscine Molitor Patel oceano afora.

A leitura rola fácil porque o livro foi seguido fielmente pelo diretor do filme. Para uma criança de sete anos, isso faz a diferença. Ang Lee só deixou de fora uma longa, mas bela, digressão sobre as virtudes das três religiões que Pi adotara: Islã, Hinduísmo e Catolicismo.

Pedro bravamente ouviu quase todo esse sermão. Mas jogou a toalha no quarto final. Dei razão a ele e pulamos para a segunda metade do livro, quando o navio é, em fim, colhido pela tempestade na travessia do Pacífico, dando início a suas aventuras que batizam a obra.

Noite passada, pra alegria de Pedro, Suco de Laranja subiu a bordo. Mas hoje à noite Richard Parker e a hiena decidirão quem vai jantá-la.

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Alma no fundo do bote – “Max e os Felinos” chegou hoje pela manhã aqui em casa. Consegui um exemplar esquecido num pequeno sebo gaúcho. A obra é rara. Mesmo na Estante Virtual há poucas opções.

De dentro do embrulho, saiu uma velha edição de bolso, com páginas amareladas, sem sinais de leitura. Custou os olhos da cara: R$ 25, fora a postagem.

Nunca tive sorte com os livros do Scliar, antes de “Max” tinha lido dois outros. Não gostei de nenhum. “O Exercito de um Homem só” abandonei no meio.

“Max e os Felinos” parece ter sido escrito sob a mesma inspiração de “O Exercito”. Perseguição a judeus, socialismo, Freud. Um tédio só. Tive de concordar com o canadense que achou que a ideia de “Pi” era boa, mas deveria ter sido mais bem aproveitada. O livro do Scliar é chato mesmo.

E não vai dar pra incluí-lo na Biblioteca do Pedro – pelo menos por enquanto. Isso porque Scliar fez questão de narrar a iniciação sexual de Max, na Alemanha pré-guerra, com uma empregada da loja de seu pai. Camponesa, ela era casada com um sujeito filiado ao partido de Hitler.

Scliar era de origem judaica. Talvez esse tenha sido o motivo para ter se arriscado nessa espécie de vingança literária. Só que, com o papel que reservou à camponesa, revelou que, pelo menos na época, compartilhava preconceito semelhante ao que pretendia condenar.

Não que me agrade o fato de escritores infantojuvenis terem de balizar suas obras com cartilhas sobre o que é ou não é moral. Fiz vários inimigos virtuais com o caso de “As Caçadas de Pedrinho”.

Mas não é só nessa passagem que Scliar deixa escapar um inopinado preconceito social. Talvez por isso que novas edições de “Max e os Felinos” sejam escassas. Talvez também tenha sido esse o motivo dos comentários do canadense no que diz respeito à estatura da obra do nosso autor gaúcho.

Mas o que de fato parece ter magoado Scliar teria sido a afirmação de Martel segundo a qual, em “Max e os Felinos”, Scliar perdeu a oportunidade de escrever uma obra-prima. (De fato, como o seu Pi, o canadense faturou vários prêmios, sobretudo o prestigiado Booker, em 2002.)

E o pior é que depois que terminei ler “Max”, fiquei com a impressão de que outros bons insights também teriam ido a pique na história do Scliar. Por exemplo, a revelação segundo a qual o felino não estava a bordo do escaler é tratada como detalhe na versão do autor gaúcho. Ele não perde mais de um parágrafo com ela.

Já em “As Aventuras de Pi” esse trecho é, na verdade, a alma da história. Para Martel, o encanto da obra está justamente na revelação de que a presença do tigre era nada mais do que uma encantadora projeção da mente do rapaz – ilusão que sua consciência construiu para sobreviver ao impossível.

E foi essa alma – não desvelada no livro do Scliar – que fisgou a sensibilidade de Ang Lee. E o motivou a produzir essa obra mágica que ganhou as telas do mundo inteiro.

Para saber mais sobre o caso:

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Sessão de “As Aventuras de Pi” dentro de Piscina na França

Dom Quixote segundo Portinari, desenho de 1965

Li outro dia um artigo que alertava para a inadequação de ministrar obras muito antigas durante o ensino básico. O autor defendia que os clássicos do sec XVIII não eram adequados para tal “momento”. Veja aqui: Brasileiro lê pouco. E você sabe por quê?

Fiquei matutando o argumento do autor. Conclui que ele estava equivocado.

Posso até concordar que o texto voltado para as crianças tenha de apresentar algumas características destintas. Mas isso não justifica privar as crianças dessas narrativas que contam a história da literatura. Afinal de contas são justamente elas que, apesar da idade, formarão futuros leitores.

Se nas edições originais o texto é muito longo – “sem diálogo e sem figuras”, como reclamava Alice -, nada melhor do que a sensibilidade de escritores contemporâneos para reescrevê-los para as crianças.

Na biblioteca do Pedro há dois bons exemplos – “O Cavaleiro do Sonho – As Aventuras e Desventuras de Dom Quixote de La Mancha”, adaptação de Ana Maria Machado para o clássico de Miguel de Cervantes; e “Ruth Rocha conta a Odisseia”. Duas ótimas edições.

Aqui em casa geralmente sou eu quem sugere as próximas leituras, mas a última palavra é sempre do Pedro. Nesse caso, os dois guerreiros de pronto cativaram meu menino.

No caso da Odisseia de Ruth Rocha, discordo da leitura que fez sobre as ingerências divinas na vida do herói. Pra mim, Ulisses ficou com Circe porque quis. E voltou pra casa quando bem entendeu. Mas essa discussão tem 2,4 mil anos. Não pretendo encerrá-la aqui.

O que importa é que, mesmo sem muitas figuras, a nau de Ulisses já embarcou a mim e ao Pedro por muitas e muitas noites a caminho de Ítaca.

Já no caso do Quixote da Ana Maria Machado, o que me chamou a atenção foi a leitura contemporânea que ela faz da saga do mais querido cavaleiro de todo mundo ocidental. Ana faz questão de lembrar os valores que Quixote defendia, mas que continuam desacreditados até hoje.

Outro destaque é o diálogo entre a narrativa de Cervantes e os desenhos de Portinari, que ilustram a edição. No final ela compara a vida dos dois autores e conta a história da intoxicação que Portinari sofreu com as tintas dos painéis da ONU, que fora convidado a produzir. Fato que desconhecia.

Já nas aventuras de Quixote e Sancho, pra minha surpresa, Ruth destacou a passagem onde aparece o cavalo de madeira, Clavileño – el Aligro, sobre cujas ancas, os heróis foram combater o gigante Malambruno no reino dos trovões (Cap XL – De cosas que atañen y tocan a esta aventura y a esta memorable historia). Esse trecho sempre mexeu comigo, porque Clavileño foi como meu pai batizou uma série de veleiros de madeira que possuímos – e hoje batiza meu Micro19.

Quixote e Sancho montam no Clavileño, desenho de Gustave Doré, de 1863.

Esses dois trabalhos não são nem sombra do texto original. Mas o capricho das escritoras captura a atenção das crianças. Eu e Pedro já os lemos várias vezes a ainda vamos ler outras tantas. Cada nova leitura: um interpretação diferente.

As imagem narrada reverberam na mente da criança, fecundando sua imaginação. E provavelmente despertará a curiosidade dela para uma possível leitura do texto original na vida adulta. Taí a importância de releituras como essas de Ruth e Ana Maria.

Na verdade reescrever clássicos para as crianças é um trabalho que exige engenhosidade (trabalho de carpintaria como diria Autran Dourado) similar ao da tradução, que, embora não converta a obra inteira, é capaz de comunicar sonhos e encantos de uma cultura para a outra.

Por vezes, há traduções que conseguem desvendar segredos escondidos na obra que nem o próprio autor poderia suspeitar. (Por exemplo, é cativante a ternura com que Ana Maria Machado trata Dom Quixote. Sentimento que todo mundo compartilha com ela. Menos Cervantes que durante a narrativa reserva surras e mais surras a seu personagem.)

Sei de traduções que saíram melhor do que o original. Exemplo disso são algumas obras francesas que Rilk verteu para o Alemão. Em “Uma História da Leitura“, Alberto Maguel menciona a tradução que Rilke fez dos poeminha de Louise Labé – poeta francesa, que vivera um século antes.

Segundo Manguel, Rilke transformou os melosos versinhos de donzela, em valorosas peças trágicas, que são lidas até hoje na Alemanhã, enquanto na França pouco se comenta sobre a obra de Labé.

Outro exemplo, pelo que parece, são as versões de Paulo Coelho para o francês. Todos, sucesso absoluto. Segundo fiquei sabendo, a cada nova produção, um time de primeira se debruça sobre os originais com a missão de transformar aquilo em caprichados textos em francês genuíno. Tal prodígio explicaria parte do sucesso do nosso mago na terra de Prust.

Isso, sim, é alquimia!

Literatura tem valor em si, quando vem com mensagem moralista vira auto ajuda

Esse julgamento do Lobato é a prova da imaturidade da nossa democracia. As instituições de Educação não têm capacidade (nem representatividade) para resolver as pendengas de sua competência. Jogam para justiça como se fosse um caso de polícia, e não uma oportunidade para se fazer um debate cultural.

Aí fica o ministro Fux falando asneira e tentando resolver na base do deixa-disso, pra ir tratar do mensalão, que é o que importa.

Do jeito que está, a discussão apresenta vários vícios de origem.

Primeiro, os algozes de Lobato justificam que a censura é por causa da incompetência dos professores da rede pública. Como ninguém quer discutir a reforma da Educação Básica, a solução facinha é taxar Lobato de racista e pronto, virar-se a página.

Outro ponto é o grave erro de tratar Literatura Infantil como material instrumental-pedagógico – cujo objetivo seria moralizar as crianças. Cheque qualquer bibliografias escolar pra constatar que a opção é por livrinhos cheios de mensagens, que segundo defendem, são úteis para a formação moral da criança (e adultos).

Quem pensa assim mal sabe que está repetindo a ideologia da arte russa stalinista. Quem tiver saco, tem um artigo no site da New York Review of Books bem legal: The Arts in Russia Under Stalin.

Literatura tem de ser tratada como literatura. Uma boa história se basta. Diverte as crianças e as deixa mais vividas. Bons educadores sabem disso.

Tive o privilégio de estudar esse tema na UnB; hoje atesto o que aprendi, lendo os clássicos com meu filho Pedro. Os livrinhos que chegam da escola entram por um ouvido e saem pelo outro. Já a literatura clássica infantil mexe com a cabecinha dele.

Foi assim quando nós dois lemos Alice e está sendo assim com As memórias de Emília e Peter Pan – nossa leitura atual. Estamos na página 120 e Pedro nem percebeu que o livro tem poucas figuras.

De fato, Lobato maltrata Nastácia. Há termos que me recuso a ler pro meu filho, por mais que o autor circunscreva os insultos às tagarelices de Emília. Mas sei que criança aprende rápido, principalmente besteira.

O que fazer? Busco uma solução. Compartilho minhas dúvidas com Veríssimo, que foi sincero no artigo sobre o causo, aqui.

Estou convicto, no entanto, que a opção pela censura é a pior. Já deveríamos ter aprendido isso.

E me recuso a aceitar qualquer decisão vinda de um tribunal sobre a obra de Lobato, ainda mais nesse país, onde juízes de cheias burras se aposentam pra virar poetas de pijama.


Caiu de paraquedas na minha mão hoje o livro do Ítalo Cajueiro e da Alessandra Roscoe, “O Jacaré Bilé”. Muito legal. Recomendo. Li pro Pedro e ele saiu contando pra todo o mundo sobre o jacaré que achava que a lua fosse tapioca. Imagem super divertida.

Aliás, o livro é cheio de imagens bem definidas e poéticas.

Muito diferente dessa literatura infantil que empurra mensagens moralistas pras crianças, com o propósito de civilizá-las.

Nada contra a chamada literatura instrumental-pedagógica. Mas tem um fundo de verdade na tese de um amigo (inteligente, mas marxista) segundo a qual essas histórias moralistas não passam de uma colonização do cérebro da criança. Dedução curiosa, né? Mas tem a ver. (É incrível como os dialético-materialistas conseguem dar plasticidade pro marxismo.)

Em  “O Jacaré Bilé” não vi nada disso. A pequena e engenhosa historinha é redonda, com um ritmo cadenciado pra uma leitura em voz alta. O texto vem sapecado de imagens bem construídas – como a do reflexo da lua no açude, que enche a pança do jacaré. Lindo!

Gostei bastante da arte-final. Os desenhos seguem o texto, mas tecem uma narrativa própria, que ora ilustra, ora pega um atalho pra reencontrar o fio-da-meada lá na frente. No meio da leitura, Pedro comentou sobre alguns desenhos que a ele pareceram se destacar da história.

Acho que são esses os segredos de uma história infantil bem construída. Texto sonoro e ritmado. Imagens bem desenhadas. E arte-gráfica que dialoga com as palavras e não se limita em tentar ilustrá-las.

As reações que Pedro teve durante a leitura mostram que o livrinho dialogou como o cérebro dele – uma criança de seis anos.

Leio incansavelmente pra ele. Sei que pouca literatura, voltada pras criança, consegue alcançar esse objetivo: se comunicar com elas, respeitando a dinâmica de sua formação.

Legal saber que tem gente em Brasília que consegue fazer isso. Quem sabe é no livro infantil que a literatura brasiliense vai conseguir o que ainda não alcançou: público-leitor.

Na Livraria Cultura tem: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?isbn=9788578480141&sid=62497122913531599566168346

 

Capa do livro “Chico Mendes para crianças”

É bom ver gente ajudando na memória do Chico Mendes.

Não gostei de um ponto do livro da Fátima: a forma como a floresta entra na obra.

Trabalho com a  Amazônia. Um dos focos é familiarizar as pessoas com nossas florestas.

Percebi que na história perpetua mitos que não ajudam as pessoas a se aproximar delas.

Ali parece que a floresta oprime as personagens. Como se as florestas estivessem distantes do mundo das pessoas, que vivem na cidade. O que é um equivoco. Elas vivem no nosso cotidiano.

Nossas opções diárias impactam diretamente ou indiretamente a floresta amazônica. A carne que comemos, as roupas que compramos os politicos que levamos ao poder.

Mesmo assim, seguimos acreditando que florestas são o contriário das cidades e nao uma extensao.

O livro ajuda nessa crença.

Prefiro pensar que nossas florestas, no lugar de isolar, quem mora dentro delas, na verdade, protege. Protege os ribeirinhos, a fauna e as águas que bebemos, nós mesmos.

Culturas milenares ainda estão sobrevivem, porque a floresta (tão grande como o mundo, pensando como Guimarães Rosa) as protegeu e preservou.

Outra questão, que não concordo é que floresta só dá lucro pra bandido.

Meu trabalho é também criar valor para nossas áreas florestais para que não sejam substituídas por pastagens.

Já imaginaram quanto vale a chuva que a floresta amazônica joga para a agricultura do centro-sul?

Os recursos que oferecem, se bem manejados, podem distribuir benefícios diretos pra quem vive protegido por elas.

Esse, aliás, é o ensinamento que o Chico Mendes deixou. Mas tá difícil de disseminar.

Mandei essa mensagem pra Fátima e parabenizei pela ajuda dela. Mas lembrei que esses são os grandes ensinamentos de Chico Mendes. E que, se ela quisesse ajudar a divulgar, ele vai ficar feliz lá onde estiver (no meio do mato, tenho certeza).

Blog da Fatima: Mariazinha zinha zinha