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Observando todas essas crianças presentes nas manhãs de leitura que promovemos, matutei com Mariana Campello quanto de carbono tem deixado de ser emitido durante os eventos no parque.

Pensamos em formular um índice que confrontasse as emissões dos eletrônicos usados pela crianças
com o tempo de duração das leituras no parque. Tipo: eletrônicos X crianças/hs.
O coeficiente seria negociado na Bolsa Verde. Que tal?
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Marina e Cristiana contam “A Vaca que botou um ovo” de

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O Gavião e o fogo

7 de janeiro de 2011

O gavião acordou cedo e levantou vôo para a ronda que fazia todas as manhãs. Era inverno e o céu estava azul claro. Lá de cima, observou o cerrado seco do Parque Nacional de Brasília.

Percebeu uma fumaça que vinha da parte baixa do parque. Era um fogo que recém começava, mas já se alastrava por entre as árvores. Quando o gavião se aproximou viu lobos, raposas, tucanos e tatus fugindo assustados.

Destemido, decidiu enfrentar o fogo sozinho. Se aproximou para o ataque, mas logo sentiu o forte calor das labaredas. Aquele não era um adversário qualquer. Contra ele, seu bico afiado de gavião-caçador e suas garras de rapina eram inúteis.

Decidiu perguntar a uma velha moradora do parque como poderia vencê-lo. Dona jabuti vivia lá antes mesmo de o parque virar parque e de Brasília ser construída. Era mais velha do que a vó da vó da sua bisavó. Por isso, conhecia quase todas as coisas.

 -Dona jabuti, como posso vencer esse inimigo da floresta?

A velha tartaruga não se surpreendeu com a pergunta, acomodou-se tranqüila e olhou para o gavião. Na idade dela, nada mais assustava. Contou a ele que o fogo não era mau naturalmente. O fogo podia ser mau, mas podia ser bom também.

– Ele é o que o bicho-homem faz dele, explicou a jabuti.

E continuou:

– O fogo é mau quando ateado de propósito na floresta. Porque queima as árvores, mata os bichos e polui o ar.

– Mas tem o fogo bom, que traz o dia para a Terra, que cozinha o almoço e aquece a casa nas noites de frio. Agora, aquele fogo, sim, aquele era um fogo mau, entristeceu-se dona jabuti.            

Mau, porque tinha sido ateado no parque de propósito pelo bicho-homem.

— Como faço para vencer esse fogo mau? Quis saber o gavião.

– O único modo de vencer um elemento natural é com outro elemento natural, explicou a velha sábia. — Para vencer o fogo só com a terra, a água, o ar ou com o próprio fogo, concluiu.

O gavião ficou pensativo. De água nada entendia. Não sabia pescar; não sabia nadar. Ficava admirado quando via os biguás boiando ao léu na barragem de Santa Maria, que ficava dentro do parque.

Tampouco era íntimo da terra. Preferia as alturas. Morava na copa das árvores. Voava por entre as nuvens. Só vinha para perto do chão quando atacava suas presas. Mesmo assim, era tão preciso no bote, que mal levantava poeira.

Agora, do ar ele era mestre. Conhecia todos os segredos do vento. Se escondia nas nuvens. Escorregava pelas brisas. Preparava o ataque no sopro da rajada. Era isso:

– O vento é que vai me ajudar a vencer o fogo, pensou consigo mesmo.

Armado com a velha sabedoria da jabuti, o gavião decolou em direção às chamas. Não havia tempo a perder!

Se aproximou da área do incêndio. Ganhou altura. Parou no ar e fixou o olhar no fogo. Como uma flecha, zuniu em direção ao chão.

Muitos bichos assistiam à cena e acharam que o gavião fosse mergulhar nas brasas. Mas, quando chegou rente às chamas, num golpe rápido, bateu as asas com tanta força que o incêndio apagou na mesma hora.

A bicharada feliz começou a comemorar a coragem do gavião. Mas nem deu tempo. Quando o homem viu que o fogo tinha sido apagado, começou outro incêndio ainda maior. Cansado, o gavião nada mais podia fazer.

As outras aves, que tinham visto como ele apagara as primeiras chamas, resolveram fazer igual. De repente, tucanos, sabiás, uma revoada de periquitos, subiram acima da copa das árvores e desceram velozes como raios em direção às chamas.

Quando bateram as asas em frente ao fogo, o vento que soprou foi tão forte que não só apagou o incêndio, como jogou o homem no chão.

Na mesma hora, apareceram na estrada outros bichos-homens. Esses, ao contrário, vinham para combater o fogo. Eles prenderam o criminoso e cuidaram dos animais machucados.

Naquele dia, o gavião aprendeu que o bicho-homem também não é mau naturalmente. Há e sempre haverá os homens que destroem, mas também outros que respeitam a Natureza.

Esses, ao invés de queimar as árvores, usam o fogo para coisas boas. Como iluminar a noite, por exemplo. Quando a tarde cai, eles acendem uma fogueira, sentam-se ao redor dela e contam históninhas para os menininhos dormirem.

Do Papai para o Pedro, em fevereiro de 2008