Um aula de como não olhar a Amazônia

6 de fevereiro de 2014

A visão colonizada por trás de uma inocente história infantil

uma-aventura-amazonica

Caiu na minha mão um livro do notório Educador Ambiental, Samuel Murgel Branco. Como era sobre a Amazônia, me acomodei para apreciá-lo. No entanto, a media que avançava na leitura, encontrava absurdo em cima de absurdo. Não consegui tirar os olhos até a última página.

O livro trata da geografia da Amazônia, narrada por meio de uma fictícia viagem ao rio Trombetas, no noroeste do Pará, feita por uma harmoniosa família paulistana.

Sei que o professor Samuel é uma referência em Educação Ambiental. Mas não pude deixar de escrever essa critica, já que a visão dele, apesar de o livro ter sido publicado em 1995, segue sendo atualíssima.

E também porque a obra está disponível numa biblioteca infantil que frequento, à mão de qualquer criança curiosa. Na verdade, o livro é uma aula de como não se deve olhar a Amazônia.

Desde a chegada dos personagens a Belém, tudo é apresentado como pitoresco, exótico. O que reforça a visão de terra distante primitiva passível de ser colonizada.

Cheio de compaixão, o autor culpa o consumo local como principal fator da degradação ambiental, que vai percebendo pelo caminho. Pesca excessiva, lixo, etc.

Tá aí o primeiro equívoco da obra. Lixo há, mas pior que o lixo é a visão segundo a qual a Amazônia é um almoxarifado de riquezas naturais livres para serem transferidas aos mercados externos.

Os setes estados da Região Norte precisam de uma política que garanta desenvolvimento local e não crescimento econômico alhures.

Belo Monte é um bom exemplo. A região afetada pelas obras está sendo sacrificada em nome de um suposto e irremediável bem maior da nação. Mas os impactos locais permanecerão. Foi assim com a hidrelétrica de Tucuruí; assim acontece na construção das rodovias da soja.

Seguindo a leitura, acompanhamos o desembarque da família na floresta – mais desinformação vai aparecendo. O narrador admira-se com a paisagem e elabora um suposto paradoxo da ecologia amazônica: apesar da biodiversidade, a floresta expande-se sobre um solo irremediavelmente pobre.

Esse erro persiste em materiais didáticos. É mais fácil acusar a floresta de paradoxal do que estudar suas complexidades.

A pergunta formulada pelo personagem denuncia o olhar forasteiro, sempre desinteressado da floresta, mas de olho na sucção das riquezas naturais.

Não deve ter sido esse o motivo da visita do professor Samuel ao Trombetas. Mas revelou sua visão colonizada que ainda hoje seus conterrâneos mantêm. Se sensíveis educadores ambientais como ele são reféns desse preconceito, imagina o resto.

Alguém interessado em manter a floresta em pé formularia a questão de forma diferente.

Tentaria compreender a relação sistêmica entre floresta, água e solo. E aí ficaria fácil de entender a fertilidade biológica que tanto impressionou o professor Samuel.

Mineração – Seguindo a leitura, a próxima parada da família bandeirante é no município de Oriximiná, às margens do rio Trombetas, para visitar uma mina de bauxita – matéria-prima do alumínio.

A partir daí, o livro se torna fundamentalmente obscuro. Revoltante até. Principalmente para quem conhece a Amazônia e aposta na Educação como estratégia de desenvolvimento.

Uma apresentação acrítica da mineração é imiscuída na narrativa, defendendo o tal do desenvolvimento e silenciando sobre os impactos ambientais e sociais que a atividade provoca.

Os processos industriais do alumínio são enaltecidos. O autor até comenta sobre a lama vermelha que o beneficiamento da bauxita provoca, mas resume o descarte com um simples “daí se joga fora”.

Joga fora para onde, Samuel?

Eu sei para onde! Para os igarapés que garantem a sobrevivência das populações tradicionais.

Participei de audiências públicas na região. Ouvi dos ribeirinhos, que na época da instalação dessas minas, as autoridades disseram que não haveria impacto, que a indústria era moderna e só traria benefício.

Mas o peixe sumiu e a água mudou de cor”, me contaram os ribeirinhos.

Aliás, a história da região é uma joia. O professor Samuel perdeu a oportunidade de escrever um livro lindíssimo.

Quilombolas – Pouco se fala, mas a Calha Norte do Pará tem uma história heroica de luta e resistência das populações negras.

Foram vários os quilombos da região formados por escravos levados ao coração da Amazônia para trabalhar na cultura cacaueira, durante o século XIX.

Negros que subiram o rio e eram abrigados pela floresta. Até hoje eles estão lá.

Ao contrário do que se entende sobre quilombos, eles nunca se isolaram – como mostra uma pesquisa das professoras Rosa Acevedo e Edna Castro, publicada no livro “Negros do Trombetas: Guardiões de Matas e Rios”

por Rosa Acevedo e Edna Castro

Estudo detalha história dos quilombos do Trombetas

Os negros da região eram foragidos, sim, no entanto nunca cortaram os laços com as cidades. As professoras descrevem o comércio que mantinham com Belém e Santarém. Falam de como esses negros foram recrutados para a guerra do Paraguai. E o melhor: contam a descoberta de um livro, onde consta o registro de batismos clandestinos de quilombolas, realizados por padres abnegados da região.

População negra que a floresta abrigou, mas que agora volta a perder direitos com o interesse minerador.

Se o professor tivesse se debruçado sobre estudos a respeito do lugar que visitou iria se surpreendente, por um, aí sim, paradoxo regional.

Antes de iniciar a mineração, o governo federal criou unidades de conservação não para proteger o meio ambiente ou as populações tradicionais, mas para garantir a segurança da mineração. Para quem não sabe, trata-se de prática comum na Amazônia, como revela a “Mineração em Unidades de Conservação”, publicado pelo Instituto Socioambiental.

No Alto Trombetas, os quilombolas foram expulsos das áreas onde moravam para dar lugar ao mosaico de unidades de conservação, criado para proteger a atividade mineradora.

Quem se recusou foi tratado à bala pela polícia. Mais uma vez, os quilombolas tiveram que fugir floresta adentro. Novamente, ela lhes acolheu.

Apesar dos impactos, a região continua linda. Uma das mais incríveis de toda a Amazônia. O mosaico de unidades compreende a Flona Saracá-Taquera, a Rebio Trombetas, que, por sua vez, integram um outro mosaico estadual.

No final, o professor Samuel ainda empurra o velho argumento segundo o qual “o meio ambiente não deve impedir o desenvolvimento do país, nem o aproveitamento racional de seus recursos”. Para ele, é só uma questão de soluções inteligentes.

Outro falso paradoxo – muito útil para encobrir interesses não confessados.

Como Educador Ambiental, o professor Samuel (que hoje dá nome a um ativo instituto voltado para a agenda ambiental em São Paulo) deveria saber que inteligência passa longe de tentar viabilizar soluções mineradoras que levam recursos para fora da região. Como diz o jornalista Lúcio Flávio Pinto, “o que falta é consciência para adotar um modelo voltado para dentro”.

Cacaulista

Inglês de Souza sem querer escreveu um belo relato sobre a escravidão na região

Para mais informações sobre a obra do prof Samuel: http://ismb.org.br/site/index.php/2012/07/22/uma-aventura-amazonica/

E aqui o livro “Negro do Trombeta” para baixar: Negros do Trombetas: guardiães de matas e rios.

E a publicação do ISA: Mineração em UCs na Amazônia Brasileira

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