A alma que Scliar esqueceu no fundo de um naufrágio

21 de fevereiro de 2013

capa de pi

Quando li que a “As Aventuras de Pi” teria sido plagiada de um conto do Moacyr Scliar, corri atrás das duas obras. Sabia que não sossegaria enquanto não passasse essa história a limpo. O sentimento de injustiça para com a literatura brasileira sempre me mobilizou.

Pelo que contava a reportagem, o autor de “Pi”, o canadense Yann Martel, teria confessado que sabia do livro brasileiro. Mas afirmava que quem o tinha escrito não passava de um autor menor.

A história repercutiu no Canadá, mas Scliar decidiu não se aporrinhar com um processo judicial alhures, numa época avançada da vida. Até porque, o canadense teria mencionado Scliar no prefácio. (Nada encontrei na edição digital brasileira.)

De qualquer forma levei Pedro pra assistir ao filme de Ang Lee inspirado no livro canadense. As Aventuras de Pi impressionaram a mim e a ele, que, apesar da idade abaixo do indicado, saiu da sessão questionando vários pontos da trama.

Nessa hora nada melhor do que me sentar com ele em volta de uma pizza e deixar o debate fruir. (Pena que geralmente no lugar da pizza prevalece o Mc Lanche Feliz.)

Pedro me fez jurar que jamais o levaria a uma viagem de navio, mas escolheu como favorita a passagem da ilha carnívora. Suco de Laranja e Richard Parker definitivamente povoaram sua mente.

Resolvi então ler para ele à noite, antes do sono, essa história do menino, do tigre e do barco. Só que na hora de escolher entre Scliar e o canadense, descobri que as edições de “Max e os Felinos” esgotaram-se há anos. Já o e-book com “As Aventura de Pi” estava acessível a um clique.

Desde então, quando bate nove horas aqui em casa, Pedro se aconchega ao meu lado e embarcamos juntos com Piscine Molitor Patel oceano afora.

A leitura rola fácil porque o livro foi seguido fielmente pelo diretor do filme. Para uma criança de sete anos, isso faz a diferença. Ang Lee só deixou de fora uma longa, mas bela, digressão sobre as virtudes das três religiões que Pi adotara: Islã, Hinduísmo e Catolicismo.

Pedro bravamente ouviu quase todo esse sermão. Mas jogou a toalha no quarto final. Dei razão a ele e pulamos para a segunda metade do livro, quando o navio é, em fim, colhido pela tempestade na travessia do Pacífico, dando início a suas aventuras que batizam a obra.

Noite passada, pra alegria de Pedro, Suco de Laranja subiu a bordo. Mas hoje à noite Richard Parker e a hiena decidirão quem vai jantá-la.

MAX_E_OS_FELINOS_1249155825P

Alma no fundo do bote – “Max e os Felinos” chegou hoje pela manhã aqui em casa. Consegui um exemplar esquecido num pequeno sebo gaúcho. A obra é rara. Mesmo na Estante Virtual há poucas opções.

De dentro do embrulho, saiu uma velha edição de bolso, com páginas amareladas, sem sinais de leitura. Custou os olhos da cara: R$ 25, fora a postagem.

Nunca tive sorte com os livros do Scliar, antes de “Max” tinha lido dois outros. Não gostei de nenhum. “O Exercito de um Homem só” abandonei no meio.

“Max e os Felinos” parece ter sido escrito sob a mesma inspiração de “O Exercito”. Perseguição a judeus, socialismo, Freud. Um tédio só. Tive de concordar com o canadense que achou que a ideia de “Pi” era boa, mas deveria ter sido mais bem aproveitada. O livro do Scliar é chato mesmo.

E não vai dar pra incluí-lo na Biblioteca do Pedro – pelo menos por enquanto. Isso porque Scliar fez questão de narrar a iniciação sexual de Max, na Alemanha pré-guerra, com uma empregada da loja de seu pai. Camponesa, ela era casada com um sujeito filiado ao partido de Hitler.

Scliar era de origem judaica. Talvez esse tenha sido o motivo para ter se arriscado nessa espécie de vingança literária. Só que, com o papel que reservou à camponesa, revelou que, pelo menos na época, compartilhava preconceito semelhante ao que pretendia condenar.

Não que me agrade o fato de escritores infantojuvenis terem de balizar suas obras com cartilhas sobre o que é ou não é moral. Fiz vários inimigos virtuais com o caso de “As Caçadas de Pedrinho”.

Mas não é só nessa passagem que Scliar deixa escapar um inopinado preconceito social. Talvez por isso que novas edições de “Max e os Felinos” sejam escassas. Talvez também tenha sido esse o motivo dos comentários do canadense no que diz respeito à estatura da obra do nosso autor gaúcho.

Mas o que de fato parece ter magoado Scliar teria sido a afirmação de Martel segundo a qual, em “Max e os Felinos”, Scliar perdeu a oportunidade de escrever uma obra-prima. (De fato, como o seu Pi, o canadense faturou vários prêmios, sobretudo o prestigiado Booker, em 2002.)

E o pior é que depois que terminei ler “Max”, fiquei com a impressão de que outros bons insights também teriam ido a pique na história do Scliar. Por exemplo, a revelação segundo a qual o felino não estava a bordo do escaler é tratada como detalhe na versão do autor gaúcho. Ele não perde mais de um parágrafo com ela.

Já em “As Aventuras de Pi” esse trecho é, na verdade, a alma da história. Para Martel, o encanto da obra está justamente na revelação de que a presença do tigre era nada mais do que uma encantadora projeção da mente do rapaz – ilusão que sua consciência construiu para sobreviver ao impossível.

E foi essa alma – não desvelada no livro do Scliar – que fisgou a sensibilidade de Ang Lee. E o motivou a produzir essa obra mágica que ganhou as telas do mundo inteiro.

Para saber mais sobre o caso:

pi_dest

Sessão de “As Aventuras de Pi” dentro de Piscina na França

Anúncios

Uma resposta to “A alma que Scliar esqueceu no fundo de um naufrágio”

  1. Vica said

    Nao sabia do plágio!
    A verdade é que li o livro antes e o filme depois e amei os dois! Com escalafrios. . . O Victor gostou do filme e como o Pedrinho, não quer saber de nada de navios e embarcações aquáticas.
    Lindo texto.
    Abs
    Vk

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: